Thiago Navas | eles estão aqui

Se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons nem dos maus. Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós. Um belo dia hoje será passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a História. Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças e a dor do último de entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro, cujo nome há de ficar. Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivessem conhecido como membros de vossa família, como vós mesmos.

Julio FUCHIK (Testemunho Sob a Forca. São Paulo: Ed. Brasil Debates, 1980)

Já há alguns anos, o trabalho do artista plástico paulistano Thiago Navas vem sendo pautado pela investigação pictórica e pelas possibilidades do desenho. Em tempos de multiplicidade de suportes, de descrença nos formatos mais tradicionais de expressão das artes visuais, de expansão da presença no circuito de galerias e museus de vídeos, fotografias, performances e instalações, Thiago Navas emerge como um defensor ferrenho da atualidade e relevância da pintura e do desenho, da tela e do papel. A bidimensionalidade sobrevive em suas obras, como um manifesto pela permanência dessas formas ancestrais e como recurso de preservação – e construção – de uma memória coletiva. Depois de séries inspiradas pela natureza e pela preservação ambiental, nas quais o desenho de animais em extinção se fazia também um clamor contra a extinção do próprio desenho, Thiago Navas apresenta agora um conjunto de retratos humanos que agrega uma dimensão política explícita às suas preocupações estéticas, sempre permeadas por questões vinculadas à memória, à cultura e à história. Pela primeira vez em sua carreira, o artista toma como tema central a história do país, valendo-se das efemérides em torno dos cinquenta anos do golpe de Estado civil-militar que deu início ao período de mais de vinte anos de governo ditatorial no Brasil para discutir a questão dos desaparecidos políticos e do esquecimento sob o ponto de vista da dimensão humana e individual da tragédia nacional e coletiva. Tanto em seus retratos de animais em vias de extinção quanto, agora, no de figuras humanas ausentes, o desenho sobrevive como antídoto ao esquecimento, como forma de agir para que a memória e a cultura se perpetuem. Trata-se de uma luta para que a arte venha a suprimir lacunas da memória coletiva da nação.

Em ELES ESTÃO AQUI, os rostos de trinta brasileiros perseguidos pelo regime militar, oficialmente considerados desaparecidos, fazem-se presentes mediante um processo que combina o desenho de observação e a imaginação. Tomando como base fotografias antigas dessas vítimas ausentes da ditadura civil-militar brasileira, Thiago Navas elabora retratos “envelhecidos” dessas pessoas, procurando imaginá-las como seriam hoje. Ao invés de retratá-las a partir das imagens que delas restaram, a partir de sua memória, o artista opta por imaginá-las tais como estariam décadas depois, trazendo-as ao presente. Ao aplicar sobre seus rostos as marcas da passagem do tempo, permite-se imaginar o futuro que não tiveram e, paralelamente, uma realidade alternativa para o país, em que tantas vidas não tivessem sido tolhidas – ou lançadas à escuridão – injusta e precocemente. Com essa operação singela, mas de grande força, a obra restitui corpos àqueles tornados incorpóreos, visibilidade àqueles tornados invisíveis. Por meio do desenho, o trabalho de Navas restitui o futuro negado a tantos perseguidos do regime militar – e ao próprio país. Os olhares penetrantes de cada um dos retratados dirigem-se ao espectador com gravidade, incitando-o a não os esquecer e a não esquecer o seu destino, sua luta, sua dor. Contemplar de uma só vez essas dezenas de rostos – e ser também contemplado por eles – é uma experiência que nos coloca literalmente cara a cara com a dimensão humana da tragédia política. Em cada rosto, buscamos respostas para o mistério de vidas que não foram vividas, encontramos traços de todas as experiências negadas àquelas pessoas, assim como foi negado aos seus amigos e familiares a possibilidade de convívio com elas. Agora, emergem das trevas em que foram lançadas para nos convidar à reflexão sobre nossa história, nosso presente e nosso futuro.

A simplicidade e rusticidade do suporte e dos materiais – papel, grafite e carvão – contrasta com a sofisticação e precisão da execução. Volumes, sombras, linhas de expressão e olhares reproduzem com naturalismo a fisionomia humana e exploram toda sua dimensão trágica e monumental. A atenção minuciosa dispensada a cada detalhe de cada rosto exprime não um mero virtuosismo técnico, mas sim a intenção de tornar quase palpáveis aquelas figuras humanas, restituindo-lhes, mais do que apenas a visualidade, a presença – eis a palavra-chave que norteia esse trabalho. É de presença e ausência que se trata aqui, de tornar visível e sensível aquilo que a violência apagou da História. Trazer à luz aqueles personagens heroicos cujo futuro – assim como o do Brasil – foi jogado às sombras pelo autoritarismo e pela perseguição política.

Marcos Kurtinaitis

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s