Sobe o Sol ou a Noite Desce? | Ana Rey . Daniel Galvão Bennett . Fernando Moleta . Fernando Soares . Guilherme Tavares . Luciana Mattioli . Santacosta . Rosa Barreiros . Sueli Espicalquis

fotos Ivan Padovani

 

Sobe o sol ou a noite desce?

É curioso pensar que na recente história da arte a pintura pouco comparece. O livro Art since 1900 publicado em 2005,  escrito por famosos historiadores da arte (Yves Alain Bois, Benjamin Buchloh, Hal Foster, Rosalind Krauss), é repleto de pinturas em seus primeiros capítulos que tratam do começo do século XX. Lá estão Picasso, Kandinsky, Mondrian etc. Já nos capítulos finais, que miram o final do século, nem sequer 5% da imagens ali reproduzidas são pinturas.

Já nos catálogos dos leilões a história é diferente. As obras que atingiram maior valor são justamente pinturas. Recentemente a obra Portrait of an artist (pool with two figures) foi oferecida em leilão pelo valor inicial de 80 milhões de dólares levando o pintor David Hockney a superar Jeff Koons com a sua obra “Orange ballon dog” cotada em 58,4 milhões de dólares, tornando Hockney o artista vivo mais caro do mundo. Esses números espetaculares dão a entender que continuamos pintando e consumindo pintura, o que pode indicar uma cisão entre a narrativa da história da arte e a prática dos artistas.

Existe uma visão que se criou no contexto de 1968 que coloca a pintura como uma mídia antiquada, que não daria conta das complexidades do mundo contemporâneo. Foi a primeira vez que se falou de morte da pintura. Contudo, o que se pode ver ao longo das décadas seguintes, melhor do que a metáfora de morte e ressurreição, foi muito mais um jogo de luz e sombras. Como os dias e as noites. Como uma lanterna em movimento pendular e dialético que ora joga luz sobre um ou outro assunto. Claro que as voltas que o mundo da arte dá são muito mais complexas que isso, mas para sermos didáticos vamos imaginar que foi algo assim: anos 70 arte conceitual, anos 80 pintura, anos 90 arte instalativa, anos 2000 pintura, anos 2010 arte política… É curioso como a pintura não deixa de existir nesses períodos de falta de luz, ela apenas desaparece da vista. Não obstante, o diálogo prossegue.

Por se tratar de um meio tradicional, toda vez que uma pintura é colocada na parede nossa primeira reação é compará-la com outra. Isso poderia ser aborrecido se ainda acreditássemos na noção de originalidade. Entretanto, se pensarmos que a tradição não é um peso e sim uma longa conversa que podemos ter com pessoas brilhantes que já se foram ou ainda estão entre nós, ela pode ser muito estimulante.

Existem vantagens: é uma linguagem que registra plasticamente o preciso tempo que o artista esteve em contato com o material, coordenando a mão que treme, a visão que borra e o cérebro que divaga. Dizem também que nos períodos de crise (inclusive financeira) os artistas se voltam para o desenho e a pintura, como a coisa mais próxima entre a cabeça e a mão para materializar ideias. Podemos ver aqui um tanto dessa urgência do fazer.

Não há nada grandiloquente nesta exposição. Nem uma grande narrativa ou discurso se impõe. As obras olham para aspectos mundanos, investigam uma visualidade tida como ordinária, objetos comuns, cenas cotidianas. Ora trazem brutos pedaços do mundo consigo. Ela parte do cotidiano mais banal para ao final se voltar para a importância do fazer e interrogar a própria pintura: como ela sobrevive sem luz? Onde ela pousa destituída de suporte? Ela flutua? Ela derrete como um picolé em nossas mãos atônitas?

Temos a tendência de pensar na pintura como eterna, talvez escorados no fato de que é ainda possível ver de perto a obra de um homem primitivo que juntou pigmento e óleo e desenhou um animal visto em contraluz na parede da caverna, mas isso é só impressão, nada é perene. Os museus em chamas estão aí para nos lembrar que a arte precisa ser vista para estar viva. Tudo precisa ser feito continuamente e todos corremos o perigo do desaparecimento.

Marcelo Amorim

 

 

 

 

Outro Lugar #2

Sobe o sol ou a noite desce?
Na coletiva “Sobe o sol ou a noite desce?” nove artistas se utilizam da pintura como recurso para materializar questões que lhe são urgentes. O pensamento pictórico não se limita aos materiais artísticos tradicionais e se espalha em objetos, através do vídeo e outros suportes pouco usuais. A exposição toma como pretexto investigar uma visualidade tida como ordinária: objetos comuns, cenas cotidianas e da intimidade, mas ao final a persistência da criação, o desejo de expressão e a própria linguagem são os assuntos tratados.

 

Artistas:  Ana Rey, Daniel Bennett, Fernando Moleta, Fernando Soares, Guilherme Tavares, Luciana Mattioli, Rafael Santacosta, Rosa Barreiros, Sueli Espicalquis

Organização: Nino Cais, Carla Chaim, Marcelo Amorim

Abertura: 18/10 

Visitação: de 19/10 a 28/10/2018

Local: Vão Espaço de Arte, Rua Mourato Coelho 787