Simone Fontana Reis | pele d’água

Pele D’agua

Em nosso primeiro contato numa residência na Amazônia, Simone logo se ofereceu para me pintar. Compartilhamos um silencio incomum para nossa falta de intimidade. Pude sentir o gelado da tinta fresca, o cheiro azedo do jenipapo ainda verde, o atrito do carvão e a água que escorria sobre minha pele receosa. Comecei a acompanhar sua produção e assisti os grafismos migrarem de corpos para corpus: papel, tela e parede. A vi produzindo peles com tinta e até mesmo órgãos sexuais femininos, tateando algo no escuro.

Na primeira tela desta exposição, ela condensa e interliga narrativas. Cria a pele de uma população de mulheres. Sexos femininos, cortados a fórceps por um bisturi, lembram feridas abertas, objetos de desejo machistas acompanhados por um rosa pálido que acena para o insignificante lugar da mulher na historia eurocêntrica. Olhadas por um novo angulo, no entanto, estas montanhas de tinta molhadas por dentro são pura expressão de poder, desejo e vontade própria.

Embarcamos para uma nova residência artística, desta vez numa aldeia Kadiweu no Mato Grosso do Sul. Buscávamos por modelos fecundos de liderança feminina na arte e na sociedade, mas nos deparamos com índias que se pintavam somente para o dia do índio e não mostravam sequer os ombros, cinco igrejas evangélicas, um pastor-cacique, dialetos e divisão de trabalho definidas pelo gênero. Voltamos com o corpo e o rosto todo pintado, ainda mais certas da potência desta prática milenar, mesmo encoberta por coerções machistas, políticas e religiosas muito familiares. Havíamos incorporado também as lacunas, o encobrimento, a fragmentação.

Em Pele D’Agua, ao se apropriar dos grafismos daquelas mulheres e os distorcer com jato de agua forte, Simone transforma a pintura étnica em distorções pictóricas, espiralando o tempo, unindo passado e presente. A tinta flutua no espaço e arredonda os cantos da sala retangular, declara sua independência, assume formas contemporâneas que preservam a transitoriedade e o aspecto cíclico dos corpus e matérias como na pintura corporal. Os grafismos resistiram, apesar de encobertos e transmutados, ao tsunami do choque colonial, quiçá um dos maiores genocídio da historia da humanidade.

Somos redirecionados a uma realidade possível e passível de ser representada – o inexplorado contemporâneo. A materialização da criatividade antes de qualquer elaboração formal, ao encontrar caminhos próprios, parece nos convidar para uma nova abertura de caminhos também para a vida.

Lucila Mantovani

 

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Simone Fontana Reis fez mestrado em Fine Arts na Central Saint Martins College of Art and Design em Londres, graduou-se em 2014. Suas práticas artísticas exploram pinturas, esculturas, instalações e vídeo. Por sua forte ligação com a natureza, há 20 anos, pesquisa florestas, orquídeas e grafismos da comunidade indígena Kadiueu no Brasil Central. Participou de exposições em Londres, São Paulo, Nova Iorque e Suécia, onde viveu por 8 anos. Foi nominada para New Sensation- 2014 pela Saatchi Art e Hot-One-Hundred- Schwartz Gallery, em Londres. Em 2017 foi escolhida para os Salões Paranaense, de Ribeirão Preto e de Londrina, e realizou a instalação Nem tudo que reluz é ouro no Paiol da Cultura em Manaus. Recentemente, organizou a residência Acaia Kadiweu na região do Pantanal, com exposição prevista para o Memorial da América Latina em Março de 2018.

fotos ivan padovani