Miriam Bratfisch Santiago| rew <> fwd

fotos Ivan Padovani

 

Repensar o fato como se estivesse nele.

Diante de acontecimentos que não contaram com nossa presença, a integridade do fato torna-se um insistente cálculo no juízo particular de nosso presente. Paira sobre a leitura do que ocorreu a nativa vontade humana da decifração, desejo capaz de assemelhar qualquer um de nós a uma criança prestes a ler pela primeira vez seu próprio nome. Ao estarmos diante de códigos, veremos sob os olhos de hoje tudo o que nos é ofertado desde a infância, atribuindo significação aos mínimos rabiscos e gestos em uma vida onde saber ler e escrever convoca nossas primeiras atribuições coletivas, sob a ordem dos direitos e deveres. Ao homem letrado, sucede um mundo xerocopiado, onde quase tudo pode ser posto no papel para ser lido depois; e assim criaram e admitiram os dez mandamentos, as ignoradas placas de trânsito, as embalagens do leite sem lactose, os classificados do jornal do bairro, os luminosos da Shell. Tudo crente no porvir.

Avistando uma fotografia que não nossa, corremos para as legendas e esquecemos que nem tudo chega por bula. Abro o álbum de minha família e apuro que o olhar de um cidadão que não conheço se assemelha ao do meu avô de assombradas sobrancelhas, as quais herdei. Suponho que o rapaz seja um irmão do meu querido velho, ou um primo próximo, figurando em frente a uma casa de reboco mais claro que o vestido de uma jovem senhora um tantinho distante que não tenho dúvidas ser minha vó. Tracejo uma linha da manga de seu vestido à primeira raiz saltadeira e graúda do pé de árvore, pulo a vista por detrás da sombra de sua copa e alcanço um quintal terroso de final dado por uma cerca baixa de estaca e arame. De suspensório, reparando um chão sem aparente motivo, está meu avô.

O passado produz pactos. Na andada da vista, creio parir meu avô naquela fotografia por acreditar em minhas lembranças como um documento de palavras firmes, sem duvidar do que estou lendo. Não vacilo pensar que seja outro homem que não ele, mesmo avistando-o de costas para a lente da câmera em seu registro. Meu avô, o mais oculto ponto de gente naquela imagem, celebra vitoriosamente minha memória como se eu fosse um menino novo sem saudades. Vencido o tempo, lá estou pedindo a benção, ganhando e mascando caramelos e ouvindo sobre como cresci rápido.

A série ‘Home sweet home’, de Miriam Bratfisch Santiago, impulsiona o delírio dos afetos resultante das lembranças no momento que invadimos a imagem do outro e cravamos nela nossa herança. Quando roubamos o paletó de um sujeito que está em suas aquarelas para vestirmos um antigo parente, ou em caravana vamos todos a um casamento na casa que imaginamos ser aquela do tio noivo em Ubatuba, rebatizamos a nós e o nosso lugar no intuito de estarmos mais perto dos ausentes. As dedicatórias emparelhadas às pinturas de mesma dimensão incomodam o acesso à certeza, mas não são suficientes para impor que o ente lembrado não esteve alguma vez no lugar descrito no verso da fotografia. Talvez meu avô nunca quis contar que passou férias no Rio, e talvez meus tios neguem isso, o que é bem diferente dele nunca ter ido lá.

Em UnHappy Days, com 30 balões de festa vazios, a memória torna-se um monumento impetuoso, inabalável aos anos, impondo que o que passou nunca passará. À vista, um corpo que resiste dizer sobre o que poderia ter sido, mais potente do que hoje é, impondo a nós que o presente não passa de um rastro das maravilhas que poderíamos ter compartilhado. Nesse trabalho, Miriam constrói um calendário de sua dor pessoal na qual a perda ergue-se publicamente não mais em prol da lembrança, mas em favor da resistente dor do filho que nunca se viu crescer. Para cada balão vazio, um ano sem seu corpo presente e mais um ano com o eterno menino. A visível falta, o invisível sopro.

No vídeo ‘Réquiem’, o assunto assume outra fala. O passeio da figura da artista pelos cômodos da casa ninando uma sacola não deixa dúvidas que a ausência da matéria filho não interrompe a maternidade. Ovos esvaziados em suas finíssimas cascas e embalados em uma bolsa de lã compõem um objeto que, para mantê-lo ‘vivo’, impede qualquer outro manuseio que não seja o do rigoroso afeto. A vigília ao objeto denuncia a sacra insuficiência da figura feminina em assumir a mínima distância de seu fruto, fazendo-nos lembrar que nesse caso é o filho que cria o sujeito ‘mãe’.

Entre lembranças voluntárias e a vontade de não querer esquecer, Miriam Bratfisch Santiago demarca em suas obras o nosso existir e o existir dos outros como uma gigantesca e crescente matéria, um corpo volátil que se espreme para caber em uma única vida. Não por acaso, a palavra matéria tem a mesma raiz da palavra maternidade; a indissociável mater, a mãe capaz de ampliar um filho em 30 para tê-lo cada vez mais sobre seus cuidados, todos na mesma casa.

Alan Adi

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Miriam Bratfisch Santiago,1956, mora e trabalha em São Paulo. Pós graduanda pela FAAP em Práticas Artísticas Contemporâneas. Entre suas principais exposições destacam-se a individual realizada no Espaço Henfil de Cultura , da Secretaria de Educação e Cultura de São Bernardo do Campo, (SP, 1997), Contraprova, Paço da Artes, (SP,2015), 3a. Grande Exposição de Arte Bunkyo
, Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, (SP, 2009), 6o Salão de Arte Contemporânea de São BernardodoCampo,(SP,2006),ColetivaGrupoKoresnagaleriaTridimensional(SP,1994). Recebeu osprêmios:6oSalãodeArteContemporâneadeSãoBernardodoCampo,(SP,2006), 1oPremio Exposiçãoindividualno mesmoSalão,MençãoHonrosana3a.GrandeExposiçãodeArteBunkyo, (SP 2009)