Maria Luisa Mazzetto | procura

fotos Ivan Padovani

 

É possível olhar para os trabalhos de arte como se observa uma cidade estrangeira. Podemos até conhecer ou dominar a língua, mas há algo dos costumes que nos escapa.
Em parte, isso acontece porque estar com a arte requer uma atualização constante da nossa disposição de ver, escutar, sentir, construir e desconstruir ideias, tomar consciências.

Este estranhamento é bem vindo se pensarmos que referência demais pode prescrever de maneira autoritária nosso contato com aquilo que experimentamos examinar. Domesticado, o desenho
– assim como outras manifestações artísticas – pode ter menos
a nos contar. Neste sentido, é intrigante acompanhar os traços sutilmente descontrolados de Maria Luiza Mazzetto. Eles parecem ir em busca de algo que não sabem bem o que é, mas quando encontram, reconhecem, engendram formas que também se reconhecem entre si e se unem, culminando em outras estruturas.

Certa vez, Adília Lopes, poetisa portuguesa, disse que escrever um poema é como apanhar um peixe com as mãos: “quando chego ao fim / descubro que precisei apanhar o peixe para me livrar do peixe / livro-me do peixe / com o alívio que não sei dizer”. Pesca quase predatória esta a da criação.

Aqui, Mazzetto parece tomar linhas como peixes. Livra-se delas, quando preciso, para procurar efeito determinado, para avançar em outra linha preexistente. Gesto presente tanto nos exercícios de traços justapostos nos pequenos cadernos como nos grandes formatos que lhe exigiram outro corpo em obra.

Fica fácil se render à menção ao universo aquático, aos corais
e algas ou às raízes de plantas, aos cipós enozados em copas
de árvores centenárias. Ou, ainda, de modo mais pungente,
às vísceras humanas, aos desenhos celulares microscópicos.
No entanto, tentar decodificar o que a artista nos apresenta não é o único modo de apreciar esta exposição. Estamos sujeitos a mais.

Ao tentar encontrá-la, a arte também nos expõe. Expõe o encanto e a ojeriza contidos na experiência de ver as coisas do mundo por uma ótica específica. Como o paradoxo da vertigem de
Milan Kundera: o desejo da queda do qual nos defendemos, aterrorizados. Diante dos trabalhos de Mazzetto talvez nos reste justamente dar espaço de mesma medida para o desconcerto

e para o contentamento, cientes de que o que está diante de nós é menos o mistério da inspiração de uma artista do que resultado de sua devoção àquilo que não lhe fora pedido.

 

Juliana Biscalquin

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Maria Luiza Mazzetto nasceu em 1977 em ribeirão Preto, cidade
onde viveu toda a infância e adolescência. Graduou-se e arquitetura
e urbanismo em São Paulo, em 2002. cursou história da arte com renata Pedrosa, acompanhamento de projetos com Monica rubinho
e Sidney Philoceron, imagem narrativa com Fernando Vilela, odilon Moraes e Laura Teixeira. Em 2015, após um longo período dedicado
a atividades alheias às artes visuais, resgata o desenho, técnica que vem sendo aplicada em seus trabalhos desde junho de 2016, quando começou a frequentar o grupo de discussões no Hermes Artes Visuais, com supervisão de Nino cais, carla chaim e Marcelo Amorim.