Lacuna e Equilíbrio | Marco Maria Zanin

Primeiro como lembrança, depois como sedução. Duas faces da memória.

Havia um cálculo impreciso todas as vezes que tentava mensurar tudo que me ressoava como lembrança e as coisas que de fato estavam cicatrizadas em mim. Talvez, essa seja a variável necessária, que junto à constante do tempo linear, tal como nos acostumamos experimentar, seja possível prever bons futuros. Se de um lado, vestígios do que foi se insinuam em forma de ternura, o tempo presente deseja arder algo que faça sentido para que o por vir não se converta em algo sombrio. Até as lembranças dos passados mais terríveis, quase sempre, fazem um acordo com o Tempo para que em sua passagem seja possível a perda de seus pesos. Percam um tanto de sua vilania para que a dor caiba no corpo de quem sobreviveu. Uma ética necessária.

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Na política dos corpos, dos afetos, dos objetos, dos desejos, dos acontecimentos, cada ato requer um outro ato que reaja, para que seja sempre possível a retomada da sensação de começo. Há uma porção em nós que anseia pelo equilíbrio, outra que encontra na lacuna, na falta, na ausência, o impulso que transforma todo corte em busca. É sobre isso que os trabalhos de Marco Maria Zanin desenvolvidos nessa sua passagem pelo Brasil sussurram. Sob o calor de outra luz, que trouxe para sua fotografia, o artista aponta para a Itália de sua memória. E assim, escombros recolhidos pelas ruas de São Paulo tornam-se um Morandi pelo encantamento das formas. Uma manga sobre um álbum antigo de fotografias celebram esse mesmo Morandi através da paleta de cor. Vale dizer, contudo, que as naturezas-mortas de Zanin já não dizem mais respeito ao gênero da pintura imortalizado pelo pintor italiano. Mas, à condição humana insuperável que é o anelo pela construção de seus significados. Nessa busca, enquanto povo, partimos das ruínas. Enquanto indivíduo, dos álbuns amarelados de tempo e poeira. A arquitetura da memória sempre estará investida de fragilidade. Assemelha-se à precariedade de um castelo de fotografias cujo o sopro suave produzido por antigo ventilador nos faz conscientes desse risco iminente de desmoronamento.

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A lembrança é sempre fugidia e volúvel, precisa de quem a reinvente, redescubra, a mantenha aquecida sob os afagos dos próprios desejos de significação. Não é assim também o infiel amante?

Ana Luisa Lima

 

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Exposição dos trabalhos feitos durante a residência no Hermes Artes Visuais onde o artista italiano Marco Maria Zanin passou 10 semanas.
Acompanhamento e texto crítico de Ana Luisa Lima

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