Mano Penalva | deslocamento

Um rascunho de luzes; Um quem qualquer, de um corpo qualquer se move. Esgotado. Pura carne. Força viva de outros. Uma sujeira lodosa prende-se a parede. O movente aqui não aparece como matéria simbólica, muito menos representativa. Mas como força. Força viva. São traços de singularidade como preferia chamar Guattari. A voz da vizinha antes estridente, agora plasma-se em uma nova sinfonia de vida. Emerge desse novo estado um torpor que catapulta sua matéria para uma qualidade de lugar onde todas as dimensões podem co-existir. Incorpora-se uma perspectiva. Armazena-se possibilidades que não se fundem ao sujeito. Acoplam-se em estrangeiros o tornando um múltiplo. Tornam-se possíveis! Não no equilíbrio, mas na tênue probabilidade da diferença. Salivas. Sulcos. Falésias. Sinto o corpo escorrer. Fio. Córrego. Pedaço de fio. O fio da navalha faz o fio de sangue. Em cada navalha há sempre um corpo inteiro. Nada por ele passa mais despercebido. O azul cintila. Tudo parece tão colado em mim que arrancar significa perder um pedaço de pele para se agarrar no outro… Há feridas, mas é de outros que um corpo-palafita se sustenta, na sua pura potência e efeito de criação-diferenciação.

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Penso que no trabalho de Mano Penalva essa qualidade de pele e movimento se atenuam. O corpo do artista parece o tempo inteiro negociar com os corpos-palafita por onde passa. Há nesse empenho um constante exercício em expor-se a essas forças do fora. Nesse caso, muito pouco interessa uma perspectiva etnográfica da caminhada, muito menos o troar afoito de um bandeirante que edificaria apenas linguagens, formas e representações. Nesse aspecto me parece oportuno problematizar um tipo exercício conquistado pelo árduo labor em driblar os ditames de um cotidiano centrado do “eu” para catapultar-se a novas dimensões do próprio corpo. Um corpo plasmado com a paisagem. Que enxerga-se como parte integrante de meio e permite-se ao admirável cruzamento que só a improbabilidade dos acontecimentos é capaz de oferecer. Há nesse modo de caminhada apenas uma obrigação: a de entender a vida, ou a arte, como o próprio gesto escultórico do fazer. (este texto é um fragmento do texto A casa-matilha e o corpo-palafita que será publicado na íntegra como parte da obra do artista a partir da interlocução com o pesquisador Tarcisio Almeida)

Mano Penalva (Salvador/BA, 1987), vive e trabalha em São Paulo. É formado em Comunicação Social (PUC- RJ) e cursou Ciências Sociais com ênfase em Antropologia por 2 anos (PUC-RJ). Seu trabalho engloba apropriações, nas quais desenvolve um estudo do objeto inserido na cultura, realizando uma longa coleta de artigos comuns encontrados na rua e em mercados populares. Ao criar os trabalhos, subverte o valor dos objetos do cotidiano, propondo novos agrupamentos estéticos. A partir das séries, Carregamentos móveis (2015), Coisa (2015) e Landscape (2014), o artista enfoca a relação entre a “Casa e a Rua”, reafirmando o interesse por temas como a natureza da representação e memória afetiva dos objetos. Entre as exposições coletivas que participou, destacam-se: “L’imaginaire de l’enfance, Cité Internationale des Arts (Paris, França, 2015), VIDI ARTE (Vidigal, Rio de Janeiro, 2014),If you see something, say something, Lot 45 (Brooklyn, NY, 2014), A rua em SP, Centro Cultural Rio Verde (São Paulo, 2012) e 13º Exposição Coletiva Alunos ACBEU, Galeria ACBEU (Salvador, 2002).

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