Cecilia Walton | diário de bordo

Diário de Bordo

No centro da sala, uma bússola de concreto. De um lado, uma concha de mármore. Do outro, três gravetos em bronze. Nas paredes, os mesmos gravetos, só que agora representados em alto relevo no papel, mais uma bússola apontando para o norte e outros trabalhos enigmáticos.

A forma como esses elementos nos são apresentados, na individual “Diário de Bordo” de Cecília Walton, sugere um tipo de relacionamento com cada trabalho que talvez não estejamos muito acostumados. Dispostos como numa instalação, os trabalhos nos dão dicas de uma ideia que paira no ar, mas que só poderemos captar se considerarmos o conjunto todo e não apenas cada trabalho isoladamente. Eles querem nos dizer algo, mas é como se cada um dissesse uma palavra, e a frase final, ou o enigma, só seria desvendado a partir da investigação do todo.

Nessa expedição misteriosa, Cecília parece sugerir não só uma paisagem, ou uma ideia de paisagem, mas sim, a ideia de exploração. Tal empreendimento pareceria estranho se considerarmos as dimensões relativamente exíguas do território: uma sala no primeiro andar de uma casa na Vila Madalena. Mas é que, a exploração que a artista nos propõe, neste caso, se afigura mais no sentido de perscrutar o espaço mental e da imaginação. E por esse viés, a sala, por conseguinte, adquire amplitude infinita.

Bússolas são feitas para nos guiar, geralmente no espaço inescrutável de florestas e matas fechadas, em que os pontos de referência, e às vezes até o ar, se tornam rarefeitos. Ou mesmo o espaço dos altos mares, onde os únicos referenciais são as estrelas. Mas as terras ou os mares por onde Cecília quer nos guiar, talvez não sejam tanto da dimensão física. São terras sutis, quase etéreas, em que os gravetos do caminho aparecem materializados apenas como resquícios de memórias, índices poéticos de um diário de bordo escrito não com tinta, mas com o pensamento. As trilhas que desbravamos e as pistas que encontramos, não são para nos levar a um lugar específico no mapa do globo, mas talvez para um lugar dentro de nós mesmos.

Para isso a artista dá forma à imaginação de uma aventura tão pessoal quanto universal, e o faz por meio de desenhos e esculturas; às vezes esculturas que querem ser desenho, às vezes, desenhos que querem ser esculturas, e assim, nos convida a expandir o olhar além dos horizontes mais longínquos, a escutar o mar por meio de conchas nunca antes ouvidas, a pisar em areias nunca antes pisadas, a navegar em mares nunca antes navegados. De repente, a sala, tão finita, se espalha até onde alcança a vista do pensar. Não seria esta, talvez, a grande audácia da arte?

Fábio Leão

 

 

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